Tabus, mudanças fisiológicas e baixa adesão ao uso de preservativos ainda desafiam a saúde sexual dos idosos
Com o avanço da longevidade, o mundo percebeu que envelhecer mudou. O lugar de quietude, repouso e isolamento social e afetivo que era reservado para os 60+ tomou outros caminhos e agora nos deparamos com o oposto, o de que viver não tem prazo de validade. Sexualidade e intimidade também não.
Segundo o Boletim da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 2024, 30% a 90% dos adultos com 60 anos ou mais relataram ter atividade sexual ativa. No Brasil, um estudo publicado em 2026 na revista Ciência & Saúde Coletiva, com base em dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, analisou informações de cerca de 22.728 brasileiros com 60 anos ou mais, apontando que 41% dos entrevistados relataram ter tido relações sexuais nos 12 meses anteriores à pesquisa.
As diretrizes de envelhecimento ativo recomendadas pela OMS tratam o bem-estar psicológico, a autonomia e as relações afetivas e sexuais como componentes essenciais da saúde integral em todas as fases da vida, incluindo a velhice. Segundo Fernanda Cunha, geriatra da Florence Hospital de Transição Recife, o avanço cronológico da vida de uma pessoa não anula a libido nem a busca por conexão. “A sexualidade é uma dimensão humana que acompanha a pessoa durante toda a vida e envolve muito mais do que o ato sexual. Inclui afeto, intimidade, desejo, identidade e conexão com o outro. O que muda são aspectos fisiológicos, que têm tratamento e não devem ser encarados como uma consequência inevitável do envelhecimento”, explica.
Segundo a especialista, há diferença em como os corpos de homens e mulheres idosos vivem, fisiologicamente, a sexualidade. No corpo feminino, a queda dos níveis de estrogênio após o climatério pode ocasionar ressecamento vaginal e desconforto, condição chamada de dispareunia. Já no masculino, a disfunção erétil torna-se mais frequente, sobretudo associada a comorbidades vasculares e metabólicas como hipertensão e diabetes (e não puramente à idade). “Essas queixas contam com abordagens terapêuticas comprovadas, como hidratantes, terapias hormonais locais e medicações específicas, e jamais devem ser tratadas como algo naturalizado ou sem solução”, destaca Fernanda.
Benefícios para além do prazer
Relatórios da OMS destacam que a atividade sexual regular na terceira idade gera impactos positivos sistêmicos. Quando vivida de forma satisfatória, ela está associada a melhor qualidade de vida, maior autoestima, fortalecimento dos vínculos afetivos e redução de sintomas de ansiedade e depressão. “No aspecto físico, a atividade sexual contribui para a manutenção da mobilidade, do condicionamento cardiovascular e do bem-estar geral, além de favorecer um sono de melhor qualidade e ajudar na redução do estresse. Também há estudos sugerindo uma associação entre uma vida sexual ativa e a preservação de algumas funções cognitivas, como memória e atenção”, diz a geriatra Fernanda Cunha.
Apesar de o corpo idoso ser favorecido, a especialista afirma que ele não é o único nem o maior privilegiado de uma sexualidade ativa. “O principal benefício talvez seja emocional. A intimidade, o toque, o carinho e a sensação de conexão fortalecem os relacionamentos e promovem sentimentos de pertencimento, segurança e felicidade. Vale lembrar que sexualidade não se resume à relação sexual: demonstrações de afeto também fazem parte da expressão da sexualidade e trazem benefícios importantes para a saúde e o bem-estar da pessoa idosa”, explica.
Alerta epidemiológico: o avanço das ISTs entre idosos
Apesar do cenário positivo, boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde apontam que, nas últimas décadas, houve um aumento persistente nas taxas de detecção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), tais como sífilis adquirida e HIV/Aids na faixa etária acima dos 60 e 70 anos. Ainda segundo a PNS 2019, entre os idosos que tiveram relações, 88,3% relataram não usar preservativo sempre, ou seja, usavam apenas eventualmente ou nunca. Entre os idosos casados, a prevalência de relações sexuais desprotegidas chegou a 93,39%. E mais: as pessoas de 70 a 79 anos apresentaram prevalência 4% maior de relações desprotegidas em comparação aos idosos mais jovens.
Alguns fatores explicam esse fenômeno, tais como a sensação de imunidade à gestação, já que muitas mulheres fora do período reprodutivo tendem a dispensar o uso de preservativo, esquecendo-se de que a principal função dele é a proteção contra ISTs; a resistência ao uso de preservativo por preconceito e falta de um debate educativo sobre o tema com o público idoso; e a segurança em seus parceiros, considerando que 85% dos entrevistados na PNS 2019 relataram que o principal motivo de não utilizarem preservativos era a relação de confiança no(a) parceiro(a). “Existe um equívoco de que as ISTs acometem apenas os jovens. O cenário atual da OMS reforça a necessidade de incluir a saúde sexual e a prevenção como parte do cuidado integral da pessoa idosa, livre de preconceitos, com a recomendação de uso de preservativos, assim como a avaliação periódica para infecções sexualmente transmissíveis, quando indicada, e a orientação sobre as medidas que podem ser adotadas após uma relação desprotegida”, alerta a geriatra.
Barreiras quanto ao tema nas consultas médicas
O silêncio sobre a vida sexual não é exclusivo dos mais velhos. Muitas vezes, dentro das unidades de saúde, a atenção se restringe ao ajuste de medicamentos e receitas de uso contínuo, negligenciando a saúde íntima. “Muitos idosos cresceram em uma época em que a sexualidade era cercada por tabus, associada à culpa ou vista como um assunto que não deveria ser discutido. Por isso, é comum que o paciente procure atendimento para tratar pressão alta ou dores, mas sinta vergonha ou desconheça que problemas sexuais podem ser tratados”, diz Fernanda Cunha. “Cabe ao profissional de saúde dar o primeiro passo e naturalizar a conversa; porém, muitos profissionais deixam de abordar a sexualidade nas consultas, o que faz com que sintomas tratáveis, que poderiam aprimorar a vida sexual do idoso, permaneçam sem diagnóstico e sem cuidado”, complementa.
Segundo a geriatra, o primeiro passo para reverter esse cenário é reconhecer que a saúde sexual faz parte da saúde como um todo, mantendo um bom controle de doenças como diabetes, hipertensão e cardiopatias, além de revisar medicamentos que possam interferir na função sexual. “Também é importante que a consulta médica inclua uma avaliação direcionada da saúde sexual, permitindo identificar dificuldades, esclarecer dúvidas e orientar estratégias individualizadas para cada pessoa ou casal”, finaliza.
























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