Acabou aquele tempo em que a responsabilidade ambiental de uma empresa se resolvia com um certificado de logística reversa guardado na gaveta ou uma nota fiscal de reciclagem apresentada apenas para "passar" na auditoria. Com a chegada do Decreto Federal 12.668/2025, o cuidado com o que acontece depois que o produto é consumido deixou de ser uma tarefa burocrática. Agora, esse é um tema estratégico que precisa estar na mesa da diretoria.
Estamos vivendo uma mudança real de mentalidade. As novas regras não apenas aumentam as metas, mas deixam claro que a empresa é responsável pelo que acontece com o resíduo até o final. Para quem está no comando, o recado é direto: a segurança jurídica agora depende de saber exatamente onde o material foi parar, e não apenas de ter o papel assinado. Na prática, o fabricante responde pelo destino do resíduo mesmo que tenha contratado terceiros para o serviço. Quem ainda vê a gestão de resíduos como um gasto isolado está correndo um risco que vai muito além de uma simples multa.
O risco de operar "no escuro"
A lógica de apenas pagar para "compensar" o que se coloca no mercado ficou para trás. O novo decreto exige provas de que a reciclagem realmente aconteceu. Se a empresa não consegue mostrar, com dados claros, de onde veio e para onde foi o seu resíduo, ela está operando no escuro.
Hoje, o controle físico da operação é a única garantia de que tudo está em ordem. Para o financeiro, a conta mudou: não se trata mais de buscar a solução mais barata para bater a meta mínima, mas de entender o tamanho do prejuízo — para a imagem e para o bolso — se houver uma falha na fiscalização. A inteligência agora está em usar ferramentas como a Lei de Incentivo à Reciclagem (LIR) para transformar o que seria um imposto em investimento para a própria operação.
O risco jurídico é real, mas o impacto na reputação pode derrubar uma marca em poucas horas. A sociedade está mais atenta e não aceita mais a distância entre o que o marketing diz sobre sustentabilidade e o que a empresa faz na prática. As companhias que tratarem a economia circular apenas como uma "tarefa do setor de ESG" serão as primeiras a sentir a pressão de investidores e de consumidores.
A pergunta que os executivos precisam se fazer hoje não é "quanto custa estar em dia com a lei?", mas sim "qual o custo de não ter uma estratégia sólida?". Ajustar embalagens ou investir em novas formas de processamento não é algo que se faz da noite para o dia; é um plano de transição. Quem deixar para decidir na última hora, sob pressão de prazos, vai pagar mais caro e terá menos opções.
O Decreto 12.668/2025 é um divisor de águas. Ele obriga a indústria a assumir custos que, por muito tempo, ficaram divididos com a sociedade. A economia circular não é um assunto técnico de engenharia; é um tema de gestão e governança. Em 2026, ter o controle total do rastro dos seus resíduos não será um diferencial, mas a condição básica para continuar operando. O desafio agora é transformar essa obrigação em uma vantagem para o seu negócio. Sua empresa está liderando essa mudança ou apenas esperando a próxima notificação chegar?
Sobre Alexandre Gallana
Alexandre Gallana Jr. é atualmente o CEO da Yattó. Ele se formou em Gestão Financeira pela FGV e em Engenharia de Controle e Automação pela UFMG. Atuou como Coordenador de Estratégia e Vice-Presidente de Empresa Júnior, onde ganhou dois prêmios de destaque. Na Yattó, iniciou sua carreira como Diretor Administrativo, permanecendo até 2020, e posteriormente se tornou Diretor de Operações. Em 2022, assumiu a posição de CEO, com o objetivo de posicionar a Yattó como uma das referências em economia circular no país, aumentando a reciclagem de materiais de baixa reciclabilidade e promovendo o desenvolvimento de jornadas de sustentabilidade de grandes empresas.
Por Alexandre Gallana, CEO da Yattó























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