Negligência na higiene, o hábito de dormir com as lentes e o compartilhamento de produtos estéticos podem levar a lesões graves na córnea e risco de cegueira.
Práticas e discretas, as lentes de contato ganham novos adeptos diariamente, levando cada vez mais pessoas a trocarem o time dos óculos pelo das lentes. No entanto, ao ignorar as orientações médicas, o que deveria ser uma solução para a qualidade visual pode se transformar em um grave problema de saúde. No mês do Setembro Safira, dedicado à conscientização sobre o uso correto e seguro das lentes, especialistas alertam que a falta de higiene com as lentes e os maus hábitos diários continuam sendo as principais causas de contaminação, úlceras e sequelas irreversíveis na visão.
Para o servidor público Jeronimo Almeida, de 50 anos, a lição demorou quase duas décadas para ser aprendida. Usuário de lentes desde os 15 anos, inicialmente por vaidade, visando deixar de lado o uso do óculos, ele acumulou um histórico de hábitos perigosos. "No início, eu era um pouco, para não dizer muito relapso. Às vezes, eu improvisava formas inadequadas de higienizar as lentes, sem seguir as orientações recebidas", relata.
O resultado foi uma sucessão de irritações, dores e lesões na córnea pelo uso de lentes sujas e danificadas. A virada de chave só veio após um ultimato no consultório. "Dra. Alzira foi bastante firme comigo. Disse que, se eu não passasse a seguir corretamente as orientações, não poderia continuar me ajudando, porque eu estava colocando minha córnea em risco e poderia chegar a um ponto sem tratamento e com sequelas”, disse Jerônimo. “Foi um 'esporro' que durou metade da consulta e percebi que havia passado dos limites. A partir dali, passei a apenas obedecer todas as orientações, sem improvisos e sem invenções", complementa.
Os erros mais frequentes e o perigo do "cochilo"
A médica oftalmologista Adriana Krym, do Instituto de Olhos Recife (IOR), pontua que o comportamento imprudente ainda é bastante comum nos consultórios. Segundo ela, os erros mais frequentes incluem dormir com as lentes, mesmo durante um breve repouso, e desrespeitar os prazos de descarte e a quantidade máxima de horas diárias de uso.
"O principal risco é a contaminação da lente e uma infecção ocular potencialmente grave, além de embaçamento visual e menor durabilidade do material", explica Adriana. Ela destaca que o paciente deve ficar atento aos sinais de alerta do corpo. "Desconforto, sensação de corpo estranho, irritação (hiperemia), visão embaçada e intolerância ao uso são sinais claros de que algo está errado", alerta.
Já Alzira Lins, também oftalmologista do Instituto de Olhos Recife, e médica que acompanha Jerônimo, reforça veementemente a proibição do sono com lentes. "Não se deve dormir de lente de jeito nenhum, nem cochilar. Quando você dorme com ela, reduz a oxigenação da córnea. Isso causa descamação, infecções, lesões graves e até úlceras de córnea com cicatrizes permanentes que podem exigir um transplante".
Mitos, telas digitais e compartilhamento inadequado
Entre as dúvidas mais recorrentes nos consultórios, um dos mais frequentes é o medo clássico de que a lente possa cair atrás do olho. "Isso é absolutamente impossível. Existe uma membrana que separa o fundo de saco das pálpebras, forrando o branco do olho junto às pálpebras’", explica Alzira Lins.
Por outro lado, a médica chama atenção para uma prática perigosa e cada vez mais comum com o uso estético de lentes coloridas: o empréstimo entre amigos ou familiares. "A pessoa tira a lente, passa um soro e entrega para outra colocar. Nunca se deve fazer isso. Primeiro porque a lente exige uma curvatura específica para cada formato de olho; segundo porque você transmite bactérias diretamente de um olho para o outro", alerta Alzira.
Outro desafio é a rotina diante de celulares e computadores. As lentes gelatinosas demandam cerca de 35% a 40% de água na lágrima, mas a fixação constante em telas diminui o piscar e resseca os olhos, reduzindo drasticamente essa hidratação. Por isso, pessoas com olho muito seco, doenças autoimunes que causam ressecamento, diabetes descontrolada ou profissionais expostos a poeira e vapores são contraindicadas para o uso das lentes de contato.
Cuidar das lentes é preciso, mas como?
Segundo a Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), o uso seguro de lentes de contato exige cuidados que vão desde a correta higiene e desinfecção até o acompanhamento oftalmológico. A oftalmologista Adriana Krym reforça sobre a importância da higienização não apenas das lentes, mas das mãos.
“Antes de manusear a lente é indispensável a lavagem correta das mãos. Além disso, cada lente, de acordo com seu material, tem um produto específico para higienização, desinfecção e armazenamento. Ao ser retirada do olho, a lente deve ser higienizada com o produto adequado antes de ser guardada no estojo e antes de ser colocada também”, orienta Adriana. “Lembrar de no caso das lentes que precisam ser guardadas em solução, como as gelatinosas, é preciso também trocar a solução de armazenamento. Também é preciso fazer higienização e troca periódica do estojo em que a lente é armazenada”, finaliza a especialista.
A SOB reforça que, caso uma lente gelatinosa cair no chão, o ideal é descartá-la; sobre as lentes rígidas, deve-se realizar uma assepsia completa com produto específico antes de reutilizá-la. A Sociedade reitera que os usuários devem descartar as lentes no prazo estipulado pelo fabricante, alternar o uso com óculos e fazer acompanhamento regular para identificar alterações na superfície ocular que podem ser agravadas pelo uso das lentes e aumentar o risco de complicações.
























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