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Livro revisita o legado de Juscelino Kubitschek e questiona os custos do desenvolvimentismo

 


Em “Juscelino: Uma Crítica ao Desenvolvimentismo”, Antônio Claret Jr. e Lucas Berlanza analisam as consequências econômicas, políticas e institucionais do modelo associado ao ex-presidente.

Às vésperas dos 50 anos de sua morte, Juscelino Kubitschek continua ocupando um lugar singular no imaginário brasileiro. Associado ao lema “50 anos em 5”, à construção de Brasília e à implantação da indústria automobilística, JK tornou-se símbolo de uma época marcada pelo otimismo e pela crença de que o Brasil poderia superar rapidamente o subdesenvolvimento.

Essa memória consagrada é reexaminada por Antônio Claret Jr. e Lucas Berlanza em “Juscelino: Uma Crítica ao Desenvolvimentismo”, publicado pela LVM Editora. Em vez de uma biografia tradicional, o livro analisa a trajetória pública de JK e as consequências do modelo político e econômico adotado em suas passagens pela Prefeitura de Belo Horizonte, pelo Governo de Minas Gerais e pela Presidência da República.

A obra aborda o desenvolvimentismo como uma estratégia baseada na atuação do Estado como indutor da industrialização, nos grandes investimentos públicos e na atração de capital estrangeiro. O objetivo não é negar a importância histórica de JK, mas discutir os custos que acompanharam suas principais realizações. “Juscelino tinha uma combinação rara de carisma, habilidade política e capacidade de transmitir confiança. Seu governo ficou associado à ideia de que o Brasil estava deixando para trás o atraso e entrando em uma fase de crescimento”, afirmam os autores.

O Plano de Metas concentrou investimentos em áreas como energia, transportes, alimentação, indústria de base e educação. Brasília, inicialmente fora das 30 metas setoriais, tornou-se a chamada “meta-síntese” do projeto. Segundo a Fundação Getulio Vargas, o programa alcançava setores públicos e privados responsáveis por aproximadamente um quarto da produção nacional. A política econômica combinava intervenção estatal, participação do capital privado brasileiro e entrada de investimentos estrangeiros para acelerar a industrialização.

Os resultados foram relevantes. Durante o período, a economia brasileira cresceu, em média, mais de 7% ao ano, enquanto a produção industrial avançou e o setor automobilístico se consolidou. A instalação das montadoras impulsionou fornecedores, gerou empregos e difundiu novos conhecimentos técnicos.

Para Claret Jr. e Berlanza, entretanto, o período também consolidou a ideia de que caberia ao Estado selecionar setores estratégicos, direcionar investimentos, conceder incentivos e proteger determinadas atividades. “Esse modelo produziu resultados importantes, como a expansão da infraestrutura e da indústria. Seria errado ignorar isso. Mas ele também fortaleceu uma cultura de dependência em relação ao Estado, estimulando subsídios, protecionismo e uma relação muito próxima entre poder público e grupos econômicos”, afirma Claret Jr.

O livro destaca que a aceleração do crescimento foi acompanhada pelo aumento dos gastos públicos, pelo endividamento externo e por pressões inflacionárias. Levantamento histórico do CPDOC registra que a inflação média anual passou de 13,5%, entre 1948 e 1955, para 22,4% durante o governo JK. Parte dos investimentos também foi financiada por operações externas de curto prazo e custo elevado.

Na visão dos autores, o êxito político de Juscelino acabou sendo confundido com a eficácia permanente de seu modelo econômico. “O maior equívoco é transformar Juscelino em um personagem que não pode ser criticado. JK foi relevante, tinha talento político, conduziu grandes projetos e marcou o país. O ponto do livro é questionar se o modelo desenvolvimentista adotado por ele deve continuar servindo como referência”, explicam.

Brasília: símbolo e contradição

Inaugurada em 21 de abril de 1960, Brasília sintetiza as realizações e as contradições do período. A nova capital representou um marco arquitetônico, urbanístico e político, favoreceu a interiorização do desenvolvimento e concretizou uma aspiração presente em constituições anteriores.

Ao mesmo tempo, segundo os autores, a obra exigiu elevados recursos públicos em um país que ainda enfrentava graves problemas em áreas como educação, saúde e saneamento. “Brasília sintetiza a lógica das grandes obras, da forte presença estatal e do crescimento acelerado, mas com pouca preocupação com os custos fiscais e os efeitos de longo prazo”, afirma Lucas Berlanza.

Para os autores, a capital não deve ser vista apenas como uma demonstração do sucesso de JK nem como simples desperdício de recursos. Ela representa tanto a capacidade realizadora do período quanto os dilemas econômicos do modelo utilizado para viabilizá-la.

Uma discussão que permanece atual

Embora examine decisões tomadas entre as décadas de 1940 e 1960, o livro dialoga com questões contemporâneas: qual deve ser o papel do Estado na economia? Como financiar investimentos públicos? Como conciliar crescimento, responsabilidade fiscal, planejamento e participação do setor privado?

“A experiência de JK mostra que é possível acelerar a economia por meio do gasto público e da expansão do investimento estatal. A questão é o que acontece depois. Quando esse crescimento vem acompanhado de inflação, endividamento e perda de eficiência, os custos aparecem mais cedo ou mais tarde”, afirmam Claret Jr. e Berlanza. A crítica da obra não se dirige ao investimento público em si, mas à ideia de que o Estado pode impulsionar continuamente a economia sem considerar limites fiscais, qualidade dos gastos, produtividade dos projetos e condições para o investimento privado.

A memória de JK 50 anos depois

Juscelino morreu em 22 de agosto de 1976, em um acidente na Rodovia Presidente Dutra. A proximidade dos 50 anos de sua morte também reabre as discussões sobre as circunstâncias do episódio. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade concluiu que não havia elementos materiais que indicassem homicídio. Em 2026, porém, um relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos voltou a apontar a possibilidade de atentado. “Caso um dia haja uma conclusão definitiva sobre as circunstâncias da morte de JK, isso certamente terá impacto na compreensão de seus últimos anos e de sua relação com a ditadura militar. Mas não altera o debate sobre o legado político e econômico de seu governo”, afirmam os autores. 

Ao examinar Juscelino por um ângulo menos habitual, “Juscelino: Uma Crítica ao Desenvolvimentismo” convida o leitor a separar a força simbólica de JK da avaliação das políticas que implementou. Mais do que negar seus feitos, a obra questiona os custos do crescimento acelerado e a permanência dessa herança na maneira como o Brasil ainda discute desenvolvimento, planejamento e atuação estatal.

 

CORP Comunicação 

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