Novo filme de Kleber Mendonça Filho mistura repressão política, tubarões simbólicos e folclore recifense para contar uma história incomum sobre o Brasil dos anos 1970.
O cinema brasileiro volta a revisitar o período da ditadura militar, mas desta vez de forma pouco convencional. O novo longa “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho — conhecido por filmes como Bacurau e Aquarius — aposta no surrealismo, em metáforas visuais e até em lendas urbanas para construir uma narrativa sobre repressão, identidade e resistência.
A produção tem chamado atenção da crítica por fugir da abordagem histórica tradicional e apostar no que o próprio diretor define como uma espécie de “pirraça estética”: uma forma de enfrentar a violência política utilizando o estranho, o fantástico e o simbólico.
Muito além da repressão
Embora inicialmente alguns críticos tenham questionado a necessidade de mais uma obra sobre a ditadura, o filme rapidamente se distancia do modelo convencional do gênero.
Ambientada no Recife dos anos 1970, a trama mistura fatos históricos com elementos aparentemente absurdos, criando uma atmosfera que lembra um filme de espionagem surreal.
Entre os aspectos mais comentados estão:
Tubarões como metáfora política
O longa estabelece um diálogo direto com Jaws, clássico de Steven Spielberg. Assim como na produção americana, o tubarão simboliza um perigo ignorado pelas autoridades. No contexto brasileiro, o animal surge como metáfora para um Estado que ameaça e devora seus próprios cidadãos.
A gata de dois rostos
Outro símbolo marcante é a personagem Laisa Elis, uma gata com diprosopia — condição rara em que o animal possui duas faces. A figura remete ao deus romano Jano, símbolo de transição e dualidade, refletindo o momento vivido pelo protagonista Armando, que precisa assumir uma nova identidade enquanto encara o passado e o futuro.
A lenda da Perna Cabeluda
O filme também resgata uma famosa lenda urbana do Recife: a Perna Cabeluda, uma perna decepada que supostamente atacava pedestres durante a década de 1970. Na narrativa, o mito ganha um novo significado — seria uma forma simbólica de a população expressar o medo e a violência policial que não podiam ser relatados abertamente devido à censura da época.
Estética inspirada no cinema dos anos 70
Além da história, a estética também busca recriar o clima da década. Mendonça Filho utiliza recursos visuais como zoom dramático, telas divididas e foco dividido, técnicas populares em thrillers da época.
O estilo presta homenagem a cineastas como Brian De Palma e John Carpenter, reforçando a sensação de que o filme poderia ter sido produzido nos próprios anos 70.
Essa atmosfera de “fantasia cinematográfica” funciona também como um mecanismo de sobrevivência para os personagens. Em um país marcado pela repressão, transformar o cotidiano em uma narrativa de espionagem seria, simbolicamente, uma forma de resistência.
Um final que traz o público de volta à realidade
Apesar da jornada marcada por elementos fantásticos, o desfecho do filme rompe com o clima surreal. A narrativa avança para o presente por meio de documentos e arquivos que revelam o destino trágico do protagonista.
Com isso, o diretor abandona momentaneamente a poesia visual para lembrar que, por trás das metáforas e lendas, a violência do Estado durante a ditadura deixou consequências reais e permanentes.
“O Agente Secreto” surge, assim, como uma obra que combina sensibilidade política com ousadia estética — usando o fantástico para tentar compreender uma realidade brasileira que, muitas vezes, parece absurda por si só.























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